terça-feira, 7 de dezembro de 2010

2 HORAS ANTES


Duas horas antes. A noite até então havia sido bastante movimentada demônios aparecendo, gente sendo possuída, pessoas morrendo, tudo dentro da normalidade de suas novas vidas, de oito dias pra cá já tinham visto quase de tudo, desde de almas, passando por lobisomens, magos e fadas, todo tipo de criatura que pudessem imaginar.
A noite estava caminhando tranqüilamente para seu final, quando Victor enquanto andava, parou repentinamente, seus olhos ficaram opacos, suas retinas buscaram abrigo para dentro de si, como se não quisessem ver o que estava por vir.
Essa cena já havia ocorrido em outras ocasiões, todos sabiam que ele acabara de entrar em transe e esperavam o resultado dessa manifestação, as coisas que vinham daí às vezes poderiam ser úteis, como já havia acontecido.
Segundos depois Victor voltou ao normal, com uma expressão meio atordoada e confusa, talvez tentando formular uma ordem, uma razão organizar tudo que acabara de ver. Seus pensamentos foram interrompidos por um coro de curiosidade.
Seu grupo queria saber o que se passava, o que ele tinha visto era notório e perceptivo na expressão de cada membro. Quando o silêncio foi rasgado pela pergunta que todos pensavam.
- Alex perguntou: O que foi, você viu alguma coisa?
A resposta foi rápida e concisa, tudo o que sua mente conseguia formular depois do atropelo de informações.
- Sim, respondeu Victor.
 - O que foi que você viu? Explique. Conte. Fale alguma coisa!
- Eu vi uma igreja velha, dentro dela um homem de cabelos longos e loiros estavam em uma espécie de beco, que depois o levou direto para um quarto onde havia duas mulheres amarradas com tubos que saiam de seus braços, pareciam que estavam filtrando ou tirando sangue, nunca tinha visto isso, olhe que já vi muita coisa nessa vida.
- Precisamos ajudá-las, devem estar na região da zona norte da cidade, já que as igrejas aqui do sul não se assemelham nada com o que vi, isso confirma as informações que temos sobre aquela região. Por que um ser humano normal manteria duas pessoas amarradas, inconsciente e drenando sangue delas.
 Isso não é atitude de uma pessoa normal., Alex você que conhece a cidade melhor que eu leve-nos até a igreja que fica ao norte precisamos ajudar aquelas garotas.
Head indaga: Nós acabamos de escapar de dois demônios e vocês já querem arranjar mais confusão, descansem essa noite amanhã nós às resgataremos, hoje não estamos em condições físicas de um novo embate.
- Alex responde: Você está com medinho, então não vá, o prejuízo que sua ausência causará é que teremos apenas um alvo a menos, isso aumentará as possibilidades de sermos feridos, mas nós conseguimos lhe dar com isso.
Silêncio e risos suprimidos são ouvidos, e todos acabam concordando que deveriam resgatar as pobres garotas, independentemente da situação em que seus corpos estavam.
 Chegando ao local Victor verifica que se trata da mesma igreja que havia visto em seu delírio do futuro, ou passado, seja lá o que for estavam do local correto.
Ao examinarem o local verificaram que antes da igreja havia um terreno gramado, com arvores grandes e verdes. Havia uma estrada formada por pedras de granito que davam até a igreja. Ao redor protegendo todo o terreno havia um muro feito com madeira que dava um ar mas colonial e humilde ao local.
Richard sempre precavido, talvez o mais sensato, sugeriu que entrassem e conversassem, ou que pelo menos armassem um plano de contingência e de execução para o resgate, mas uma vez sua voz foi suprimida pelas atitudes impulsivas de seus companheiros.
- Alex sugeriu, vamos tocar fogo na cerca ao redor da igreja, com isso os forçaremos a sair, logo depois entramos e retiramos as garotas sem maiores problemas, é genial todos concordam.  Não deu tempo nem de ouvir a resposta e continuou sua explanação já que temos um plano e todos concordam vamos lá.
A região norte não era nada do que eles estavam acostumados a ver, as casas ali tinham elegância, bem projetadas, não lembrava em nada os cortiços que estavam acostumados a morar e visitar na região sul.
A igreja ficava localizada em uma vizinhança elitizada com casas bem planejadas, jardins bem cuidados, era tudo muito bonito e com aspecto de riqueza, que nada lembrava a devastação que a guerra havia causado para o mundo.
As ruas devido ao horário tarde que já se encontrava estavam quase vazias, poucos transeuntes as cruzavam, sem prestar atenção no que se passava ali, pareciam preocupados apenas em chegar em suas casas e terem seus devidos descansos.
Enquanto Richard tentava convencer aos outros que aquilo não era um bom plano, pois ele podia sentir que o dono do local não era alguém que se preocupava em esconder a grandeza de suas forças, que não era interessante mexer com um ser dessa importância no estado em que se encontravam.
Quando foram surpreendidos por um foco de incêndio que se iniciara, com ajuda de Alex, bem próximo ao portão principal da igreja. Não demorou muito e dois homens saíram para verificar o que estava acontecendo.
Com um salto rápido e preciso Alex se atracou com um dos homens em quanto o outro olhava estático sem entender, nem mesmo os companheiros de grupo esperavam aquela ação. Mas numa resposta rápida a ação de seu amigo Victor arremessou uma de suas facas em direção ao estático homem, entretanto seu arremesso não foi tão preciso quanto ele esperava e acabou acertando a perna direita do pobre desafortunado.
Enquanto o resto do grupo ainda olhava estarrecido, Alex finalizou o embate torcendo o pescoço de seu rival, parecia até mesmo cena de filme devido a grande facilidade com que ele realizou a ação.
O pobre homem que ainda estava de pé procurava entender o que se passava ali, por que estavam sendo atacados, quando finalmente percebeu que a faca havia penetrado em sua perna e começou a se lamuriar, resmungava baixo choramingava. Victor tentando acabar com o duelo, assim como seu colega havia feito, arremessou outra faca essa porém não atingira o alvo.
Alex verificando o insucesso de seu amigo sacou uma pistola e atirou em direção ao homem que ainda resmungava baixo, o tiro acertou o seu braço direito e o grito foi inevitável. Um urro de dor se propagou pela noite ,seguido de vários gritos de socorro, que droga , porquê.
Eram atitudes irracionais e desumanas as tomadas pelo grupo até então. Eles vieram com o objetivo de salvar duas garotas das possíveis atitudes cruéis e desumanas de seus carrascos, Victor para evitar mais transtornos maiores arremessou outra faca, essa acertou em cheio o peito do pobre homem que sucumbiu caindo ao chão desacordado

ALEX 1






O silêncio da noite invade e contamina o ambiente, o vento frio corta como navalha quem se atreve ir contra ele, as estrelas pareciam que haviam se escondido com medo do que ainda estava por vir.

A noite até então não havia sido nada boa, tudo havia dado errado. A soma dos acontecimentos só tornava insuportável a sensação do fracasso, impotência e decepção. Sentia no peito um vazio que não conseguia explicar, uma raiva que contaminava todo o ser.
A morte inesperada de um padre, a invocação irresponsável de um demônio e uma missão que quase levou a morte de todo grupo, tudo isso não teve um impacto tão devastador quanto aquele pouco de liquido funesto, viciante que fora derramado em sua boca.
Todos os acontecimentos da noite e a ingestão daquele liquido, por pior que fossem ainda seriam suportáveis, o que realmente fez a diferença foi o autor da obra de arte, pensava, pensava em inúmeras razões para que aquilo tivesse ocorrido, por mais que sua racionalidade dissesse que era a coisa certa a ter sido feita, seu coração se recusava acreditar.
Como foi confiar naquele tipo de ser novamente, aqueles que um dia haviam lhe tirado tudo que mais importava, não conseguia entender aquela mistura de sentimentos que circulavam pelo seu corpo, Angustia, tristeza, raiva, afeto desprezo, repulsa, perdão todos duelavam freneticamente em busca de sobressair e enfim racionalizar uma ação.
O silêncio fúnebre da cena permitia que o vento aconselhasse, a água que restava daquilo que um dia fora um rio tocava seu pés tentando limpar a mácula de sua alma, as folhas caiam das arvores como brinquedos caiam do armário lotado tentando de alguma forma acalmar aquela inquietação.
Isso seria um ponto de vista para quem desejava relaxar, mas para uma mente confusa, com ódio e desilusão predominando não passavam de insultos, a água provocando uma reação, o vento instigando, incitando uma retaliação e as folhas mostravam apenas que hora do fim chegava para todos, talvez a sua tivesse por chegar.

As lembranças do passado que estavam aprisionadas pelo seu rancor e determinação, enfim soltaram-se e corroíam os seus pensamentos, tudo que tinha passado e suportado para enfim cair no mesmo erro que seus pais cometeram, como foi confiar, mas ainda havia tempo para correção, tinha que arrancar o ódio e o mal que contaminava seus pensamentos e qual a melhor forma que não por sangue.
Sua cabeça insistia em dizer que era suicídio, mas todos iremos morrer um dia, seus sentimentos respondiam. Melhor morrer salvando uma vida do que ficar nessa situação de impotência, lamentação e covardia, pois jamais tinham sido suas características, sempre se comportou como um guerreiro e assim morreria fazendo.
Em regra guerreiros agiam por instinto, muitos morriam prematuramente e nunca foram conhecidos por sua grande capacidade de pensar, pelo menos não os que conhecia. E com um pensamento impulsivo e estúpido resolveu voltar à casa do inimigo de horas antes.
Buscava a justificativa para tal atitude imprudente, na garota que haviam deixado para trás, não porque quisera mais devido ter sido tirado de lá por algo ou alguém que não controlava e nada podia fazer, pois não conhecia o covarde de seu anjo da guarda.
Levantou-se lentamente, pois seus ferimentos conspiravam contra a idéia que acabara de ter. Mal podia se colocar de pé, não tinha forças o suficiente para agüentar a dor de ossos quebrados, à medida que tentava levantar, estalos, rangidos que vinham dentro de seu corpo diziam que a melhor coisa a fazer era descansar.
Mas a teimosia e o impulso sempre falaram mais alto, insistia com a idéia, no mínimo imprudente que tivera, sua cabeça o convencia que era uma ação nobre e justa, mas no fundo sabia que isso era um suicídio e talvez por isso a idéia tinha tanta força.